A economia solidária é opção ao capitalismo

Na primeira vez que conversei com o economista e Secretário Nacional de Economia Solidária Paul Singer, para uma reportagem sobre negócios sociais da edição passada, sobrou um gosto de quero mais. A longa conversa havia terminado na visão otimista dele, que acredita num futuro cujo modelo econômico dominante será a economia solidária, pilar de uma relação mais humana e igualitária do trabalho. Antes disso, já havíamos passeado por características inerentes ao capitalismo e pelos limites da responsabilidade social atualmente. Mas aquela reportagem não abarcaria a trajetória do economista, considerado responsável pela difusão do conceito de economia solidária no país, que já tem mais de 22 mil empreendimentos no setor.
 
Por isso, voltamos a ele, e o resultado está abaixo.
 
O GLOBO: O senhor disse que acredita num mundo onde a economia solidária possa mover boa parte da economia. Como se daria essa transição? Paul Singer: Não acreditamos na imposição pela força. O chamado socialismo real foi uma desgraça. O que a gente quer é que as pessoas possam escolher e, nesse sentido, a economia solidária é uma alternativa ao capitalismo.
 
Sempre que houver alguém querendo empregar e alguém querendo ser empregado, haverá capitalismo. E o fundamental é a democracia.
 
Mas é preciso que as pessoas possam fazer essa escolha, saber que podem gerir seus próprios negócios, em conjunto. Aos poucos, muita gente tem optado pela economia solidária, porque trata-se não apenas de melhoria na renda, mas de uma relação de trabalho mais humana, que leva em conta a felicidade pessoal.
 
O GLOBO:Em que contexto surgiram os primeiros empreendimentos solidários no Brasil?
 
Singer: Nos anos 1980, quando o Brasil foi apanhado por uma grave crise econômica.
Naquele momento, muitos funcionários foram demitidos e precisavam de uma alternativa para se manter no mercado de trabalho. Foi nosso primeiro contato com o desemprego em massa.
 
Então, a Cáritas (entidade da Igreja Católica que atua na área dos direitos humanos e do desenvolvimento sustentável solidário), que já estava no Brasil desde 1956, decidiu que não iria só dar de comer aos pobres. A saída foram os projetos alternativos comunitários, com o objetivo de dar trabalho a quem não tinha. Estamos falando de uma época em que a Teologia da Libertação já havia sido difundida na América Latina, tratando de estruturas econômicas injustas e do homem pobre como sujeito de sua própria libertação. É nesse contexto que surgem os primeiros brotos de economia solidária no Brasil.
 
O GLOBO: É nos anos 1990 que a economia solidária começa a se consolidar no país, certo? Singer: Nos anos 1990, a crise só se acentua e o movimento de economia solidária se fortifica, com o mesmo objetivo de se criar opções de empregos para os desempregados, ou de um trabalho mais digno para aqueles que preferiram abandonar uma vaga assalariada. Os sindicatos começam também a apoiar os trabalhadores de empresas falidas, para que eles as assumissem com a gestão compartilhada. Por fim, o Betinho faz a primeira campanha Natal sem Fome. Logo depois do êxito enorme daquela campanha, resolve-se que não basta dar pão.
 
É preciso que a própria vítima da fome possa conseguir seu sustento. É mais um impulso para a economia solidária.
 
O GLOBO: Quais são as principais características de um empreendimento econômico solidário? Singer: São duas principais: propriedade coletiva e voto por cabeça. Todos participam igualmente. São cooperativas, atuando sem investidores. Os donos dos empreendimentos são os próprios trabalhadores e gestores.
 
O GLOBO: E, para além das questões sociais, há discussões ambientais atreladas? Singer: Um dos braços mais importantes da economia solidária são os extrativistas. Chico Mendes foi um dos precursores das cooperativas entre os seringueiros, por exemplo, que até hoje são defensores da economia solidária. E, para eles, preservar é questão de vida ou morte. Se trabalham para uma corporação, eles extraem como se manda, mas se trabalham para si próprios passam a ter cuidados enormes. O mesmo acontece com as quebradeiras de coco.
 
Essas pessoas estão próximas das florestas, e são as mais afetadas pelo desmatamento. Não vão desmatar, se houver escolha.
 
O GLOBO: Na maioria dos casos, são redes criadas para facilitar a comercialização de produtos e serviços? Singer: Sim. É muito difícil trabalhar isolado, por isso os participantes da economia solidária se unem. São dois tipos de empreendimentos: num deles, os trabalhadores produzem juntos e a única diferença para uma empresa é que trabalham para si próprios. No outro são trabalhadores individuais ou familiares, que fazem parte da economia solidária porque são associados, compram e vendem junto com outras pessoas. Eles juntam a produção, dividem custos da logística e também os lucros. Isso facilita bastante, você não imagina como faz diferença na vida dessas pessoas.
 
O GLOBO: Quantos empreendimentos existem hoje no setor? SINGER: Temos um mapeamento de 2007 que localizou 22 mil empreendimentos. Mas o número é ainda maior, pois só conseguimos abranger 52% dos municípios.
 
O GLOBO: É um número bastante significativo se comparado a outros países…
Singer: Sim, com certeza. E somos o único país no mundo que possui esse mapeamento. Eu mesmo não acreditava que o crescimento do setor seria tão grande em menos de 20 anos.
Após a criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária, dentro do Ministério do Trabalho, pelo presidente Lula em 2003, o crescimento foi maior ainda. Sendo assim, além das crises que mencionei, tivemos depois apoio do poder público e vontade dos trabalhadores como impulsos.
 
E a maioria fica no setor, não volta mais para o trabalho assalariado. Já são 226 trabalhos acadêmicos sobre o tema, e cada vez mais gente se envolve com a economia solidária.
 
O GLOBO: Mesmo com o sonho da carteira assinada que existe no Brasil, muitos empreendedores preferem não buscar mais empregos em empresas convencionais? Singer: Trata-se de uma libertação das relações de trabalho capitalistas, é um relacionamento mais humano, digno. Há algumas pessoas que ficam um tempo na economia solidária e preferem voltar a uma empresa, porque perderam proteção dos benefícios trabalhistas e do salário certo.
 
Mas a maioria fica, porque é uma melhoria na qualidade de vida, na renda familiar. A ideia é libertar-se do trabalho subordinado, no qual a pessoa ganha um salário para obedecer ordens e, em muitos casos, nem sabe muito sobre o produto final da companhia. Se tiverem estímulo, as pessoas percebem que há outras formas de viver que não a exploração imensa que existe em muitas empresas.
 
O GLOBO: Há algum tipo de parceria com o setor privado na área? Singer: A Igreja é representante do setor privado, assim como os sindicatos. Mas em relação a empresas não há muitas parcerias, porque não há oferta por parte delas. Só consigo lembrar de uma, que é o Consulado da Mulher. A Cônsul entrou em contato, dizendo que tinha máquinas de lavar que eram testadas e não podiam ir para as lojas. Após a proposta, muita gente foi contrária, a incubadora da USP não quis parceria, porque, de fato, somos um movimento social contra o capitalismo. Mas eu fui a favor. Afinal, íamos ajudar umas centenas de mulheres a sair da pobreza, cooperativadas que precisavam de máquinas para prestar serviços. É complicado, mas há empresas e empresas. Já falei para empresários do Instituto Ethos, eles gostam muito, mas não costumam propor nada.
 
O GLOBO: E os consumidores, sabem o valor de um produto vindo da economia solidária? Singer: Existe um esforço na divulgação do comércio justo. O objeto em si tem um histórico por trás que sempre está apresentado de alguma forma. O valor dessa história é inestimável. As pessoas precisam conhecer mais.
 
Fonte: Agencia Sebrae de Notícias
 

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