Brasil se transformou em laboratório interessante para a Economia Solidária

logo nexus ONG vettorialeEm entrevista, presidente da Nexus falou da parceria com a UNISOL Brasil e sobre como a ONG italiana atua no mundo 

A presidente da Nexus, Sandra Pareschi concedeu à UNISOL Brasil uma entrevista exclusiva a respeito do trabalho da entidade no mundo e também da importância da UNISOL Brasil para o crescimento da Economia Solidária no País. Criada pela Confederação Geral Italiana do Trabalho em 1993, a Nexus é uma ONG (Organização Não Governamental) que incentiva a cooperação internacional.
Na entrevista, Sandra explicou como a Nexus funciona no mundo e como se dá o trabalho de parceria com a UNISOL Brasil. “ Acho que fomos aprendendo juntos, enfrentando conjuntamente vários temas”, disse a dirigente italiana a respeito da experiência adquirida durante anos de trabalho conjunto. Ela também traçou uma analogia entre a Economia Solidária na Itália e no Brasil e concluiu que, apesar do sistema ser mais recente aqui, os empreendimentos solidários brasileiros souberam se defender melhor da crise financeira mundial, transformando o País em um laboratório interessante. Leia abaixo a entrevista na íntegra.
UNISOL Brasil – Fale um pouco sobre a Nexus. Quando ela surgiu e o que ela faz?
Sandra Pareschi – A Nexus Solidariedade Internacional Emilia Romagna é o Instituto de Cooperação para o Desenvolvimento, uma ONG fundada em 1993 pela CGIL (Confederação Geral Italiana do Trabalho). A Nexus realiza a cooperação internacional, a fim de contribuir para melhorar a qualidade de vida das pessoas e fortalecer as instituições democráticas, com particular atenção às questões trabalhistas, no pleno respeito pela diversidade cultural e do princípio da auto-determinação dos povos. Hoje, a Nexus está presente na América Latina, na África, no Mediterrâneo e nos Territórios Ocupados da Palestina. Na Itália, a Nexus organiza iniciativas para promover a consciência intercultural e a solidariedade, cursos de formação para delegados sindicais e trabalhadores. Além disso, promove programas de educação para a globalização para estimular a consciência e aumentar o interesse do público italiano e europeu sobre os problemas dos países em desenvolvimento.
UNISOL – Como se dá a atuação da Nexus internacionalmente? Qual a origem dos recursos e como a entidade consegue contribuir com a Economia Solidária de outros países?
Sandra – A cooperação internacional que a Nexus estimula não é uma esmola e não é paternalismo. Existem algumas palavras-chave: direito, paz, coexistência da diversidade, conhecimento local, o acesso a recursos e a serviços básicos, soberania alimentar e a igualdade de participação das mulheres na vida social (que são a base de nossas ações). A Cooperação Internacional para nós significa convivência e solidariedade pacífica e significa condenar a guerra, que só vai mascarando os interesses econômicos e a hegemonia sobre os recursos e multiplica as injustiças. A paz é um pré-requisito para o desenvolvimento. Em tudo isso há muitos atores sociais que precisam se sentir envolvidos. Em primeiro lugar, os sindicatos, que sempre se esforçam para manter as melhores e mais dignas condições de vida, e as comunidades locais, como sujeitos potenciais da mudança. O indivíduo é importante, porque a mudança no padrão de desenvolvimento depende da alteração do estilo de vida de cada um de nós. Todo ser vivo no planeta está em rede com outras pessoas e é responsável por suas condições de vida: é a globalização que pretendemos alcançar. Nossos projetos são financiados principalmente pelas contribuições de trabalhadores da nossa região, a partir das estruturas sindicais, fundos públicos para a cooperação e por meio de editais públicos nacionais e internacionais.
UNISOL – Por que a relação e a parceria da Economia Solidária com o movimento sindical são importantes?
Sandra – Economia Solidária é uma alternativa na crise geral. O cenário europeu hoje é constituído principalmente de capitais selvagens, queda de investimentos produtivos (desindustrialização), desemprego e aumento exponencial das dívidas públicas. Usam a austeridade como única cura, cortes sociais da despesa pública, abolição dos direitos trabalhistas. A crise, que é permanente porque ignora a economia real, justifica as políticas de austeridade que criam injustiça e riqueza concentrada. E o pior é que enfraquecem a economia.
A relação com a Economia Solidária tem ajudado o sindicalismo europeu a promover uma reflexão sobre o trabalho digno e decente como própria consequência da Economia Solidária. Isso acontece também com as instituições envolvidas nas relações de parceria. Na nossa região, Emilia Romagna, recentemente foi aprovada uma nova lei sobre esse tema que se chama “Regras para a promoção e apoio à Economia Solidária”, reconhecendo-a como uma ferramenta para enfrentar a crise econômica, ambiental e de emprego. A lei define medidas de apoio para melhorar, promover e apoiar o desenvolvimento da Economia Solidária a partir da aplicação de sistemas de certificação participativa local, criação de um Fórum Regional de Economia Solidária e de um observatório regional, com um portal web dedicado. Economia Solidária, direitos trabalhistas e sindicato caminham de braços dados.
UNISOL – Fale da parceria entre a Nexus e a UNISOL Brasil. Como começou?
Sandra – Na verdade, a colaboração surgiu, em primeiro lugar, entre os sindicatos da Emilia Romagna e da CUT (Central Única dos Trabalhadores) na década de 1980, quando Enrico Giusti, sindicalista da CISL e depois diretor do instituto de cooperação ISCOS Emilia Romagna, foi pela primeira vez ao Brasil, em 1986, participar de projetos de cooperação sindical e encontrou o Lula.
Paralelamente, no final dos anos 1980, um grupo de sindicalistas metalúrgicos do ABC realizou, na Itália, um curso de formação para conhecer a experiência da FIOM (Sindicato dos Metalúrgicos) e da CGIL. O próprio Lula, em seguida, já no PT, e não mais na CUT, foi envolvido no relacionamento com os sindicatos italianos.
Na década de 1990 várias atividades de cooperação internacional permitiram a Lula e a outros líderes do PT conhecerem o modelo cooperativista italiano, que acharam poder ser uma ferramenta para enfrentar a crise brasileira, principalmente focada na indústria do automóvel e os processos de reorganização de empresas multinacionais com sede na região do ABC. No tópico de demissões e fechamento de indústrias, a CUT e, especialmente, os metalúrgicos do ABC iniciaram uma reflexão sobre a forma de abordar as questões de trabalho e emprego. A forma cooperativa se torna uma saída possível para recuperar as empresas falidas. Daí a ideia de Lula de construir um relacionamento com sindicatos, instituições e cooperativas da Emilia Romagna. A própria decisão de trabalhar a questão das cooperativas no Brasil veio em 1996, quando o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, durante o seu II Congresso, propôs a experiência de cooperação, auto-gestão, co-gestão e outras formas criativas para garantir o trabalho e ações para combater o desemprego. A Nexus entrou nesse ponto, para atuar com a cooperação internacional na construção de um instrumento de ação para combater a crise, dentro de uma estratégia sindical: a UNISOL.
UNISOL – Fale dos resultados desse intercâmbio. O que a UNISOL aprende com a Nexus e o que a Nexus aprende com a UNISOL? Por que é importante para a Nexus manter parceria com a UNISOL?
Sandra – Acho que fomos aprendendo juntos, enfrentando conjuntamente vários temas: como garantir um padrão de crescimento com desenvolvimento sustentável em termos econômicos, sociais e ambientais? Como repensar a relação entre crescimento, progresso social e meio ambiente? Como repensar os atuais padrões de produção e consumo e influenciar a mudança de hábitos e valores? Qual a contribuição da Economia Solidária para essas mudanças? Como as cooperativas e as pequenas e médias empresas podem contribuir para a sustentabilidade?
Na comparação, nos anos 1990, o Brasil estava em forte crise e posicionado entre aqueles países em vias de desenvolvimento, enquanto a Itália se tornava uma das principais potências industriais. Hoje a situação é inversa e as perspectivas são incertas no mundo inteiro. O Brasil, porém, soube enfrentar a crise daquela época bem melhor do que a Itália faz na crise atual. E a Economia Solidária foi, na verdade, uma ferramenta, em favor dos brasileiros. Esta relação internacional é uma fonte contínua (direta e indireta) para refletir e trabalhar juntos em prol de objetivos e ideais comuns, com fundamento no sindicalismo e na solidariedade.
UNISOL – Quais os principais projetos da Nexus em parceria com a Unisol que estão em andamento no Brasil? Algum projeto já foi concluído? Qual o resultado dos projetos concluídos?
Sandra – Atualmente está sendo executado um treinamento para a liderança da UNISOL, a segunda parte do projeto Brasil Próximo: apoio à construção do marco regulatório e ferramentas operacionais para o desenvolvimento das cooperativas; um projeto regional com o Uruguai, por meio do qual já se atuou uma missão “mista” na Itália – sindicatos e cooperativas – para visitar as cooperativas em nossa região e para participar de um seminário e do Congresso da CGIL. No final de novembro está prevista uma reunião regional em Porto Alegre. Muitos projetos estão concluídos. Quando o sindicato brasileiro tomou a decisão de criar e desenvolver a UNISOL, a Nexus teve um papel de forte apoio desde os seus primeiros passos, desde à primeira estrutura da UNISOL no Estado de São Paulo, quando a Central de Cooperativas se expandiu em uma escala nacional, virando UNISOL Brasil e para a criação da estrutura da UNISOL Finanças.
Nos últimos anos, a Nexus acompanhou as políticas decididas pela liderança da UNISOL, apoiou a construção de redes de setores produtivos e das cooperativas individuais filiadas à UNISOL, com projetos de formação de quadros e formação profissional; comprando equipamentos, compartilhando a criação do fundo de apoio ao crédito da UNISOL Finanças, sem perder o objetivo de ter uma visão mais política das relações de trabalho. Também participamos do projeto “Red del Sur” apoiando a rede binacional do PET. O resultado é a própria força da UNISOL, a contribuição da UNISOL para o movimento cooperativista e da Economia Solidária no Brasil. Quero acrescentar também a confiança entre as pessoas, que foi crescendo, abordando tarefas sempre mais complicadas em um mundo sempre mais complicado.
UNISOL – No seu ponto de vista, qual segmento da Economia Solidária tende a se solidificar com mais rapidez no Brasil?
Sandra – Todos aqueles que se beneficiam das ajudas políticas, econômicas, financeiras do governo federal e dos governos estaduais. Todos os projetos que estão localizados em áreas onde a política e o sindicato também fazem parte do jogo. Acho que é principalmente assim que os empreendimentos têm possibilidade de sucesso permanente, duradouro.
UNISOL – Fale sobre a Economia Solidária no Brasil? Qual o grau de maturidade em comparação com a Itália e outros países onde atuam?
Sandra – Vou fazer uma comparação começando da realidade italiana (na verdade em outros Países onde operamos a Economia Solidária é ainda “criancinha”). A indústria na Itália está desaparecendo e desmanchando todo o sistema de proteção social que construímos em mais de dois séculos de história – sintoma principal da crise. Acontece que também o sistema cooperativo está atuando de forma semelhante aos empreendimentos capitalistas. Por exemplo, as cooperativas de serviço que têm 5,7 mil funcionários em todo o país, 4 mil concentrados na Emilia Romagna, cancelaram todos os acordos coletivos substituindo com um regulamento interno em derrogação das regras, visando reconstruir as margens de lucro sobre as costas dos trabalhadores. O Brasil encarou as coisas de outra forma e virou um laboratório interessante de alternativas ao modelo liberal em crise. A Economia Solidária fala de “interesses comuns” de “coletivos e valores”. Trabalha com os movimentos sociais, mas também com a política pública. Busca direitos trabalhistas e os sindicatos. Tem visão, onde o centro é o ser humano e o bem-estar coletivo, o meio ambiente. O desenvolvimento não só coincide com o “ganho”, mas com um trabalho digno e sem nenhuma contração de direitos. Pelo menos é o que teoriza.
Para finalizar, acho que todos temos que parar de “resistir” e começar a “transformar”. Não só temos que recuperar os postos de trabalho perdidos na Itália e melhorar as condições do trabalho em todo o mundo, mas voltar à sindicalização como um índice do grau de socialização de um país e, portanto, como a taxa de recuperação de uma sociedade do “nós” em face da sociedade do “eu”. Temos que mudar o modelo de produção e consumo, buscar a liberação do trabalho o qual tem que assumir novos significados, colocar as comunidades e o desenvolvimento local no centro das atividades de produção e das relações de solidariedade. Ter um planejamento coletivo e um consumo responsável. Acho que nesse rumo a Economia Solidária tem que continuar a avançar no Brasil como na Europa. Essa é a melhor estratégia para o futuro, para o sindicato e para o mundo inteiro.
 

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