Clima adverso em diferentes polos ameaça oferta de mel

Produção de mel em Itainópolis, no Piauí: na região, as chuvas têm início normalmente em dezembro, mas as primeiras nuvens começaram a se formar só neste mês. Foto: Arquivo Valor Econômico.


Estiagem no Sul e no Nordeste, enchentes no Sudeste. As discrepâncias climáticas acentuadas este ano pelo La Niña podem levar à quebra de safra também do mel brasileiro, com perdas significativas de colmeias e o encarecimento do produto no mercado interno.
As principais regiões produtoras sofrem com os extremos de alta e nenhuma precipitação em pleno momento de “desenvolvimento” da safra – período em que as abelhas operárias saem em busca do pólen necessário para gerar o mel.
Alçado em 2011 às principais posições no ranking de exportação de mel no país, o Piauí talvez seja o caso mais preocupante não só pela seca, mas pela baixa tecnificação. No polo de produção de Picos, a 350 quilômetros da capital Teresina, as chuvas que normalmente começam em dezembro e se estendem até o início de abril tiveram quase um mês de atraso neste ano. Só há duas semanas as nuvens começaram a se formar.
“Foi um sufoco. No ano passado, a essas horas, já tínhamos recebido vários carregamentos de mel”, diz Sitonho Dantas, diretor-geral da Casa Apis, cooperativa que reúne 950 dos 18 mil apicultores piauienses. Sem chuva, as flores do semiárido nordestino não desabrocharam em janeiro e as abelhas, como esperado, voaram para outros lados em busca de seu pólen. “Muitos tentam manter as abelhas oferecendo um composto alimentar complementar, de açúcar e água, mas a minha experiência de 28 anos na apicultura mostra que isso não é suficiente”, diz Dantas. “Cerca de 80% dos enxames da região de Picos foram embora para o Pará e para o Maranhão”.
É uma situação bem diferente da safra passada, quando o tempo ajudou a Casa Apis a colocar nos entrepostos 700 toneladas de mel, puxando a produção estadual para mais de seis mil toneladas no ano e a segunda posição nas exportações do produto pelo país.
O Estado nordestino, que aderiu à cultura nos anos 70 com a chegada de apicultores paulistas, representa hoje aproximadamente 40% da produção nacional. Quase tudo vai para o exterior. Estados Unidos e Alemanha são os maiores compradores do mel do Brasil, que embarcou 22,4 mil toneladas de uma produção total de cerca de 40 mil no ano passado.
Em São Paulo, que disputa com o Rio Grande do Sul a liderança na produção de mel do país, e em Minas Gerais, os apicultores também fazem as contas dos prejuízos neste ano-safra, mas por razões contrárias. As chuvas que alagaram várias cidades também “lavaram” as floradas na zona rural. No movimento de sobrevivência no semiárido, os enxames se espalharam atrás de alimento. “Houve quebra de safra de 50% do mel silvestre”, afirma Joelma Lambertucci de Brito, secretária-executiva da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel). “A gente deve sentir falta de produto lá por meados de maio, quando entramos na entressafra”.
Responsável por 60% de todo mel produzido no Sudeste, o mel silvestre foi bastante afetado porque sua janela de produção é justamente entre dezembro e janeiro, quando as chuvas oscilaram entre fortes e torrenciais. Essa leva, portanto, já se perdeu. A esperança do setor reside agora nas safras do mel de eucalipto, que começa neste mês e segue até março (responsável por 30% da produção total da região), e do mel de laranja (7% do total), de setembro até novembro.
A seca nos arredores de Picos e as chuvas de São Paulo e Minas estão diretamente ligadas, afirma Celso Oliveira, da Somar Meteorologia. As duas regiões estiveram sob influência de uma frente fria que estacionou sobre o Sudeste. “O que faz chover no Nordeste é a frente fria. Como ela parou sobre o Sudeste, choveu aqui e secou lá”.
Mas a falta de frente fria no Piauí deverá ser compensada pela chamada zona de convergência intertropical, um paredão de nuvens carregadas na linha do Equador comum no verão, que deverá ocorrer com mais força este ano devido ao La Niña. “Por sorte, Picos não depende de um único sistema meteorológico”, diz Oliveira. “Já Minas deverá sofrer um pouco mais com chuvas à frente”.
As previsões da Somar indicam que a média histórica de 180 milímetros de chuva para o mês de março deve ficar em 140 neste ano em Picos. Em abril, os 115 milímetros não devem ultrapassar os 100. Mas isso não deve ser um problema, afirma Oliveira, porque as chuvas ocorrerão de forma mais distribuída, o que é melhor que pancadas de chuvas fortes e períodos de seca alternados.
“A vantagem é que o Brasil é um país continental. Se quebra aqui, a gente pega o mel dali”, relativiza José Cunha, presidente da Câmara Setorial do Mel, do Ministério da Agricultura, e da Confederação Brasileira de Apicultura. Por ser uma cultura sem estatísticas confiáveis, Cunha diz ser difícil prever a real produção de cada Estado – e isso explica a disputa pela primeira posição entre São Paulo e o Rio Grande do Sul, com a aproximação do Piauí em segundo lugar.
Em termos gerais, o Brasil está na sétima posição no ranking global de mel. A produção de cerca de 40 mil toneladas ao ano ainda está a léguas de distância da liderança chinesa, de 140 mil toneladas, e da vizinha Argentina, com produção de 90 mil toneladas de mel ao ano.
Segundo o Sebrae, as exportações do país – a vocação do mel brasileiro até agora – vem crescendo, com uma alta em 2011 de cerca de 83,2% em peso líquido em relação a 2010. “O grande desafio continua sendo o mercado interno”, diz Fátima Lamar, coordenadora nacional da carteira de apicultura do Sebrae. Segundo ela, o consumo per capita no país é de só 103 gramas de mel ao ano. Nos EUA, é de um quilo per capita ao ano. Na Europa, 1,5 quilo de mel.
Sitonho Dantas, da Casa Apis, não arrisca números para esta safra. Cauteloso, diz que há chances de chover até abril. Com todas as mazelas climáticas, essa região do Brasil tem a vantagem competitiva de responder rapidamente ao menor sinal de chuva. Um dia de precipitação é capaz de tirar da “hibernação” as plantas e, em poucas horas, as primeiras folhas verdes começam a brotar. “O tempo começou a mudar. Podemos nos surpreender, como ocorreu em outros anos. Agora é esperar as abelhas voltarem”.
Fonte: Valor Econômico / Por Bettina Barros | De São Paulo
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