Dignidade se recicla?

A produção de lixo nas grandes cidades brasileiras cresce cada vez mais porque o consumo também se eleva. E se por um lado isso indica o aumento da renda de alguns, por outro, o número de pessoas que vão trabalhar como catadores de material reciclável desenha o cenário da pobreza que persiste.
Goiânia já faz parte desse perfil. Há centenas de catadores nas ruas da capital, revirando o lixo para encontrar entre os restos absolutos aquilo que pode ser reaproveitado. A vida árdua desses profissionais em jornadas incomuns está exposta para todo mundo ver, mas por um incrível golpe de prestidigitação social todos se tornam invisíveis.
Para melhorar tal situação, começam a aparecer os primeiros trabalhos de cooperativismo. Um deles é o da Cooperativa dos Catadores de Material Reciclável Amamos o Meio Ambiente (Cooper-Rama), no Jardim Curitiba 3. Na quarta-feira, 16, a equipe da Tribuna do Planalto foi ao local para conversar com a presidente Dulce Helena do Vale.
Ela nos recebeu com um largo sorriso. Não só ela. Todos que estavam por ali, se preparando para mais um dia de trabalho, demonstraram satisfação com nossa presença. Havia material reciclável por toda a parte empilhado ou espalhado pelos cinco amplos cômodos sem muita luz. Tudo aquilo dava uma sensação de frieza.
Mas Dulce Helena, 49 anos, uma mulher bem falante, comunicativa e totalmente integrada com as atividades da cooperativa, quebrou o gelo. Não teve nenhum vacilo em sentar comigo e conversar por um longo período, respondendo prontamente às perguntas. E eram muitas, de todos os tipos, algumas inclusive que exigiam respostas dolorosas.
Dulce me explicou que a cooperativa foi formada em 2008 pelo projeto Incubadora Social, da Universidade Federal de Goiás (leia mais na página 6). Trata-se de um projeto desenvolvido por meio da Pró-reitoria de Extensão e Cultura – Proec, que tem como objetivo contribuir com a formação cidadã e qualificação profissional de pessoas economicamente menos favorecidas.
De acordo com o coordenador da incubadora, o professor Fernando Bartholo, o objetivo é gerar renda e inserção no mercado de trabalho, especialmente por meio da constituição de empreendimentos no campo do cooperativismo, na perspectiva da educação popular e da economia solidária.
Extraordinário
Ao falar dos profissionais que ali trabalhavam, Dulce foi logo explicando que as pessoas que desenvolvem a atividade no local são denominadas de catadores de material reciclável. “O lixo é somente aquilo que não pode ser reaproveitado, reciclado. Não é o caso do material encontrado aqui na cooperativa.”
A questão do lixo é sempre debatida nos meios de comunicação. Mas pouco se fala do humano nessas abordagens. Recentemente criou-se uma expectativa em torno disso em função de um documentário que mostra o trabalho do artista plástico Vik Muniz com os catadores de material reciclável em Duque de Caxias, Rio de Janeiro.
Em Lixo Extraordinário, Muniz faz do lixo arte, cria beleza a partir de uma realidade brutal. O documentário está concorrendo ao Oscar, que será divulgado no próximo domingo, 27. Mas a vida de Dulce e de seus colegas não tem glamour nenhum. “Quem tem família para criar e não consegue emprego melhor acaba virando catador”, diz ela.
O lixo com o qual lida, para tirar dali o sustento, é ordinário ao extremo. Extraordinário talvez seja o limite no qual vivem todos. “Apesar dos riscos à saúde, do desprestígio social e da baixa remuneração, conseguimos superar limites através da nossa amizade, que nos torna uma grande família de catadores de material reciclável”, comenta Dulce.
Segundo ela, na maioria dos casos, trabalhar na separação de material reciclável não se trata de escolha, mas de luta pela sobrevivência. “Hoje, para a maioria, só isto já compensa o sofrimento de uma vida inteira, pois nas ruas só encontramos decepção, além de sermos violentados moralmente”, desabafa.
Dulce se refere ao fato de os cooperativistas não trabalharem nas ruas, como os catadores comuns que a gente vê puxando enormes carroças pela cidade. Essa retirada das ruas, no entanto, é apenas a eliminação da ponta do iceberg. As outras dificuldades se mantêm. Ao falar desses gargalos sociais, ela perde um pouco o sorriso.
Nesse momento, Dulce volta os olhos para o chão e, com voz trêmula, diz que que a vontade é de ver aquele local com capacidade de infraestrutura física para ajudar socialmente todos ali. “Cada um de nós carrega a sua dor, a sua história. Não temos amparo social, de saúde, de dentista, de escola”, diz.
Visibilidade
Muitos de seus colegas nunca foram à escola. Mas não é só esse o problema. O analfabetismo afetivo dos afortunados socialmente também atinge esses trabalhadores. “Que bom se todos pudessem aprender a ler e escrever. Mas que bom também se tivessem alguém com quem desabafar, tomar um café numa xícara em que nós mesmos tomamos e sermos tratados por igual pela sociedade.”
Muitas vezes, só a atenção de dispensar um “bom dia” já é motivo para ver nascer um sorriso no rosto de quem está carregado de mágoas, angústias e decepção. “Infelizmente quase não temos apoio de instituição e nem do poder público”, completa Dulce. “Tudo o que temos é o que retiramos do trabalho feito na cooperativa. O apoio somos nós mesmos, uns pelos outros.”
Ainda bastante emocionada, a presidente também ressalta que a atividade não é tão reconhecida quanto é reconhecido o valor ambiental que eles sabem muito bem que exercem. O volume de trabalho é gigantesco. Muitos trabalham 15 horas diárias, e a maioria ganha em média um salário mínimo. No limite da exaustão, alguns conseguem chegar a dois salários.
Além disso, esses profissionais têm de lidar com o preconceito diário. Mais do que isso, têm de encarar a realidade de que são ignorados pela sociedade, na maioria absoluta das vezes. “Mas aqui dentro da cooperativa, o nosso pensamento, a nossa autoestima são outros, com certeza. Sabemos que a nossa profissão, embora não reconhecida nem pelo poder público, é digna como qualquer outra.”
Persistência
Com a cooperativa, Dulce acredita que é mais fácil reciclar os ânimos, alcançar a consciência de cidadania, resgatar a dignidade e seguir em frente, sempre na tentativa de obter resultados positivos. Ela conta que ali estão associadas 22 pessoas e que todas elas, antes de ir para a Cooper-Rama, já perambulavam pelas ruas da Capital na coleta de material reciclável.
Segundo Dulce, a diferença de trabalhar nas cooperativas é o fato de que nas ruas os catadores só recolhem o material de maior interesse comercial, ou seja, o de maior preço, mas pouco. Já a cooperativa recebe da Comurg e do setor público estadual todo o material que será reciclado, seja ele de preço bom ou não.
Dulce também conta que nunca havia trabalhado com reciclagem antes, mas que se envolveu de tal forma com a vida de cada um dos sócios cooperados que hoje não consegue mais ficar longe do local, mesmo tendo recebido, no mês passado, uma proposta de emprego com carteira assinada e melhor salário.
Ainda emocionada, Dulce me diz que todos ali fazem parte da grande família Cooper-Rama. Todos se ajudam. Todos vêm de uma camada social extremamente carente, em que a fome, a falta de saúde, as drogas e a violência estão presentes. Muitas vezes, diz ela, só por ouvir os problemas uns dos outros, que são muitos, já é um grande alívio. “A carência aqui é demais”, desabafa.
Embora em cooperativas os catadores têm obtido resultados expressivos no sentido de melhorar suas condições de trabalho e remuneração, Dulce reclama que os atravessadores ainda abocanham a maior parte do faturamento gerado na reciclagem.
“Não temos como levar esse material diretamente para vender na indústria por falta de estrutura física.” Além disso, diz a presidente da Cooper-Rama, Goiânia só conta com uma indústria, que é de isopor, e há outra em Senador Canedo, de papel. “Se vendemos para eles por 1 centavo, eles revendem por 4, 5. E nós é que ficamos com todo o trabalho pesado e sujo.”
“Trabalho pesado e sujo” não é metáfora. É a realidade em que Dulce e seus colegas estão inseridos. Quando chegamos à cooperativa, sentimos essa realidade. No local, um cheiro forte de resíduos misturados intensifica o aspecto de total abandono, causando a impressão triste e suja. Embora, vale ressaltar, esses profissionais fazem um esforço tremendo para manter sempre limpo e arrumado o seu ambiente de trabalho.
Fonte: Tribuna do Planalto, Sara Cassiano

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