Empresas Recuperadas: uma realidade e um caminho para a inclusão

Vicente Nepumuceno, do GPERT, apresentando os resultados da pesquisa

Vicente Nepumuceno, do GPERT, apresentando os resultados da pesquisa

Nos próximos dias outras matérias trarão ricos detalhes deste evento, com a participação de convidados internacionais

O primeiro dia do evento ‘Empresas Recuperadas por Trabalhadores’ trouxe aos presentes uma série de novos conhecimentos sobre o assunto, que começa a ganhar mais atenção e ser objeto de recentes análises acadêmicas e despertar o interesse de um público mais amplo. Em vários países do mundo existem empresas recuperadas, como na França, Grécia, Itália, que tem longa tradição no assunto, e mesmo nos Estados Unidos, berço do capitalismo tradicional, entre outros. O fenômeno ocorre há pelo menos um século, segundo o pesquisador italiano Dario Azzellinni.

Na abertura, Arildo Mota, presidente da Unisol Brasil, evidenciou a importância da Economia Solidária e das empresas recuperadas na sociedade. Membro da Uniforja, uma das mais bem sucedidas empresas recuperadas brasileiras, do ramo metalúrgico e com faturamento de R$ 165 milhões em 2013, ressalta: “Escolhi o cooperativismo como a forma devida de relação a qual tenho me dedicado e temos também experiência na assistência às empresas que precisam de recuperação. Em dado momento, no Brasil, tínhamos 200 empresas recuperadas, restaram 67, e isso mostra a necessidade de seguirmos em debates, discussões e articulação política para continuar estimulando este segmento. O Governo atual reafirmou o seu compromisso, dizendo que todas diretrizes da 3a Conferencia (CONAES) serão acatadas, o que melhoraria ainda mais as condições para o cooperativismo”.

O ambiente de crise econômica instalado em 2008 levou à falência milhares de empresas ao redor do globo. E não se restringe às empresas pequenas e médias, na América Latina e em países periféricos, mas também atinge unidades produtivas de grandes corporações, multinacionais ou não. O fato é que devido às crises anteriores, mais abrangentes ou locais, já se observava o nascimento de empresas recuperadas. Com as crises, falências e inflação ou deflação, combinados em muitos casos, o desemprego atingiu recordes na Espanha, na Argentina e em outros países, e números preocupantes nos Estados Unidos.

As condições que geram uma falência são diversas, indo da má gestão aos problemas econômicos do micro ou macro ambiente externo à organização. Entretanto, uma vez a bancarrota se aproxima e o corpo gestor não tem soluções e em muitos casos até abandona a causa, qual a razão dos trabalhadores não assumirem as atividades, se eles têm o conhecimento técnico e de gestão (estes últimos, supervisores, coordenadores e gerentes) ? É fato que os problemas e desafios podem ser enormes, desde a desconfiança dos clientes e dos credores até o clima psicológico adverso causado com a escassez de insumos e pressões de todos os lados nos períodos de transição.

A motivação primordial para o processo de recuperação de uma empresa é que seus trabalhadores não querem perder seus empregos e desejam assumir, em conjunto, como os proprietários dos meios de produção. Assim, rompem as relações tradicionais e fortemente hierarquizadas do sistema capitalista tradicional, constituindo um corpo gestor entre eles, os trabalhadores, tornando possíveis a democracia e a participação de cada um nas decisões corporativas. E dividindo o faturamento em porções mais justas, entre salários e benefícios. As empresas recuperadas também reinvestem seu capital em máquinas, equipamentos e inovação e dependendo do caso precisam pagar dívidas acumuladas na administração anterior ou feitas no andamento do novo negócio.

Os americanos estão entre os pioneiros no tema, pois aprovaram em 1960 uma legislação específica para permitir a compra de ações de empresas por seus trabalhadores, fruto de pressões para uma maior participação nas companhias, dando origem a ESOP (Employee Stock Owerneship Plan). Em 1973, o Congresso americano firmou um conjunto de leis complementares à ESOP para aumentar esta participação, criando incentivos fiscais e de crédito. A ESOP tem servido de alternativa para crise financeira e de gestão nas firmas americanas, e a companhia aérea United Airlines é o exemplo recente mais conhecido.

No Brasil, um dos primeiros casos de empresas recuperadas é de uma mina de carvão em Santa Catarina, assumida e recuperada pelos mineiros em 1983. Existem hoje no País cerca de setenta empresas recuperadas e ativas.

As mesas do Encontro tiveram o papel de complementarem-se ao longo do dia. Na abertura, na parte da manhã, comentou-se sobre o cenário geral brasileiro dos últimos quinze anos, que propiciou o aumento e o descrécimo no número de empresas recuperadas. À tarde, ocorreu a apresentação dos resultados da pesquisa Empresas Recuperadas por Trabalhadores – Diagnóstico das Experiências Brasileiras, do Grupo de Pesquisa em Empresas Recuperadas por Trabalhadores (GPERT). Paul Singer, secretário nacional de Economia Solidária (SENAES/MTE) fez uma análise do tema, sendo acompanhado por Claudio Nascimento e Lenivaldo Lima, da Usina Catende.

Singer compara: “a nossa grande conquista é o pleno emprego. O Brasil é um dos poucos países onde os jovens não se matam porque não tem nenhuma perspectiva de trabalho, como tem acontecido nos países da Europa que amargam a crise (desde 2008). O neoliberalismo é um tipo de política econômica que maximiza o desemprego. Eles causam o desemprego e o alimentam. E isso torna os sindicatos totalmente impotentes. No momento em que se tem uma fila de pessoas querendo ocupar uma vaga de emprego, ninguém irá fazer greve (por aumento de salário). O movimento operário está sendo esmagado. Por uma repressão econômica. Os países no exterior como a França estão procurando preservar o movimento operário. A lei que cria novas empresas recuperadas na França é um caminho. Os dirigentes dessas empresas (médias familiares, inclusive as em condições de falência) estão na casa dos 55 anos e quando tentam passar o bastão para os mais novos, encontram resistência, porque estes jovens estão indo para carreiras criativas, ou no mercado financeiro, etc..Dessa forma, centenas de milhares de empresas estão desaparecendo, por falta de continuidade na gestão. Uma empresa recuperada é uma alternativa a esse quadro e ao desemprego, e promove, ainda, a inclusão de pessoas mais velhas no mercado de trabalho”, conclui.

A última mesa, de apresentação de experiências internacionais, compartilhou ações, problemas, cenário político e econômico e resultados positivos de cada empresa recuperada representada. Teve a participação de Plácido Peñarrieta, da Red Gráfica e Chilavert, da Argentina; Mario Daniel Barraco, da URUVEN, do Uruguai; Jorge Alberto Eredia, da Zanon, da Argentina e Hugo Guede, da Profuncoop, do Uruguai, além de comentários e tradução de membro do GPERT e de Ariel Fassolari, assessor da diretoria da Unisol Brasil e um dos organizadores do evento. 

O Seminário continua até sábado, 13 de dezembro e se você quiser participar, as inscrições são gratuitas e no local do evento.

Serviço:

Auditório do Centro de Formação Celso Daniel – Rua João Lotto, s/n. Centro – São Bernardo do Campo (SP). Fica ao lado do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.
Inscrições gratuitas, no dia e no local do evento. São cerca de 100 lugares na plateia.
Contato: gprecuperadas@gmail.com
Sobre o GPERT – www.recuperadas.org
A organização do evento é do Grupo de Pesquisa de Empresas Recuperadas (GPRE), grupo multidisciplinar e interinstitucional formado por pesquisadores de núcleos/laboratórios de 12 universidades brasileiras (INCOP/UFOP; SOLTEC/UFRJ; NESOL/USP; CEFET-RJ; UFSC; NETS/UFVJM; INCUBES/UFPB; PEGADAS/UFRN; UNESP Marília; NEICT/UFF, GAPI/UNICAMP, UNIRIO e UFRB).
O GPERT realizou uma pesquisa nacional com 67 empresas recuperadas por trabalhadores no Brasil para a produção de conhecimento (empresas coletivas oriundas de massa falida). Teve o objetivo de contribuir para a inserção da temática do trabalho associado nas ciências exatas aplicadas e administrativas e com a construção de políticas públicas que ajudem a viabilizá-las social e economicamente. O escopo envolve ainda a realização de uma análise das relações sociais de produção em construção em ERTs no Brasil. O trabalho resultou num livro.
Fontes: GPERT; artigo Como as empresas recuperadas podem responder à crise econômica e superar a instabilidade econômica e laboral?, VERAGO, Josiane/USP-PROLAM, 2008; artigo Fábricas Recuperadas na América Latina e Além: uma questão para hoje e amanhã, MACDONALD, José e FARIA, Mauricio, 2011; artigo Empresas Recuperadas por Trabalhadores em Regime de Autogestão: reflexões à luz do caso brasileiro, JUVENAL, Thais, 2006;
 

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