Juarez de Paula, gerente de Desenvolvimento Territorial do Sebrae Nacional

Rede de Tecnologia Social – O novo Plano Bianual da RTS prevê a incorporação de seis grandes eixos de atuação no âmbito da Rede. Por quê?
Juarez de Paula – A RTS completou cinco anos e é necessário que amplie seu foco de atuação. Nos primeiros anos, a ideia foi concentrar nossos esforços em algumas poucas tecnologias para que o governo as transformasse, inclusive, em políticas públicas. Para isso, escolhemos basicamente TSs de geração de trabalho e renda, com foco nas regiões mais pobres do país. Nossa tarefa então era combater a pobreza e difundir o conceito de TS e a própria Rede como possibilidade de articulação entre os diferentes atores do país dedicados à construção de novas alternativas de desenvolvimento.
Essa etapa foi consolidada. Já temos mais de 800 instituições participando, além de organizações de grande representação social que atuam no Comitê Coordenador da RTS, como é o caso do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), a Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA), a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) e a Rede Cerrado. Isso sem falar em suas instituições mantenedoras, que são instituições de muita solidez e prestígio no Brasil, como a Petrobras, a Fundação Banco do Brasil, a Finep, o Sebrae e diversos ministérios.
RTS – O que está por trás desta mudança?
Juarez – Já tenho defendido, nos últimos eventos nacionais da RTS, que nós abandonemos a lógica de priorização territorial. Temos de atuar em todo território nacional, ampliando o leque de temas prioritários, agregando à Geração de Trabalho e Renda outros temas que sejam relevantes do ponto de vista da afirmação de um conceito de desenvolvimento verdadeiramente includente e sustentável. Essa é a grande tarefa para o futuro da humanidade: questionar o modelo de desenvolvimento que temos hoje, o modo de produção e consumo que esgota os recursos naturais e coloca em risco a própria sobrevivência do planeta.
Nosso papel, nesse sentido, deve ser facilitar a transição para uma sociedade menos dependente de combustíveis fósseis, e as Tecnologias Sociais que queremos são justamente aquelas que facilitem essa transição. A gestão sustentável de recursos hídricos e florestais, a produção de energia limpa e a busca de eficiência energética, a produção sustentável de alimentos saudáveis e de habitações e infra-estruturas sustentáveis são temas que contemplam esse desafio, e para os quais há Tecnologias Sociais disponíveis que podem ser reaplicadas.
RTS – Qual será o rebatimento desta ampliação para a atuação da RTS?
Juarez – Acho que, na prática, isso facilita a formação de novas parcerias. No setor privado, por exemplo, conseguimos avançar pouco. Sabemos que há muitas empresas que já trabalham estes novos temas e que poderão, a partir de agora, colaborar mais efetivamente com a RTS. O segundo efeito prático é ampliar o leque de possibilidade de discussão, com o governo, sobre a construção de políticas e investimentos públicos para a disseminação de mais tecnologias.
RTS – Como as instituições associadas à RTS podem contribuir neste momento?
Juarez – No início, a expectativa maior de boa parte das instituições que aderiram à Rede era a captação de recursos. Tínhamos um grande número de ONGs que são reaplicadoras de tecnologia em pequena escala e que enxergaram na RTS uma oportunidade de ganhar visibilidade e aproximação com financiadores que pudessem aportar recursos a suas atividades. Isso é absolutamente legítimo, mas não levou necessariamente a uma participação intensa.
Essas organizações precisam ser criativas e pressionar a RTS no sentido de criar novas articulações, para que possam demonstrar, inclusive, que seu trabalho pode ser aproveitado para além do local onde atuam. Hoje já temos ferramentas que permitem isso, como o Portal da RTS e o Espaço Aberto de Conhecimento. O que precisamos é intensificar seu uso para que as entidades associadas consigam dar mais visibilidade a seu trabalho e estabelecer uma interação mais forte com as instituições mantenedoras.
RTS – Qual o significado de dar início a esse planejamento às vésperas do processo eleitoral?
Juarez – Acho que há ônus e bônus. O bônus é estabelecer uma perspectiva de continuidade. Apesar de ser uma iniciativa que teve desde seu início uma presença muito relevante de organizações do governo federal, a RTS não pode ser um projeto vinculado ao governo. Ela tem um propósito que transcende qualquer mandato, e por isso precisamos apontar que as instituições que estão reunidas na RTS têm essa clareza.
O ônus é que, nessa transição, todas as organizações mantenedoras da RTS vão naturalmente sofrer mudanças em seus corpos diretivos, o que vai exigir um novo processo de negociação a partir do próximo ano. É um risco que nós enfrentamos, mas que vale a pena correr. Aí valerá nossa capacidade de diálogo e negociação, no sentido de mostrar que tudo o que fizemos nesses últimos cinco anos deve ser mantido. Nesse sentido, a participação do conjunto das instituições que formam a rede é decisiva. É ela que mostrará a capilaridade, o enraizamento e a relevância deste tipo de experiências para o Brasil.
RTS – E como é possível intensificar essa mobilização?
Juarez – Precisamos nos aproximar de outros movimentos que também incorporam esse potencial transformador em direção a uma sociedade includente e sustentável. Destaco aqui dois outros tipos de iniciativa que dialogam muito fortemente com a ideia da RTS, que são os movimentos da Economia Solidária e do Desenvolvimento Local. Afinal, é no local que estabelecemos nossas relações sociais e com a natureza. É ali que podemos promover, também, as mudanças na perspectiva deste outro modelo de desenvolvimento.
 
Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS
 

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