Terra Forte: a nova cara da reforma agrária no país

Quando se fala em reforma agrária, logo se pensa em barracos de lona e esperança por melhorias nas condições de vida através da posse da terra. Com a política de distribuição de terras aparentemente superada pela busca do desenvolvimento dos assentamentos já existentes, o governo federal arrisca uma nova configuração no campo. De simples agricultores familiares, os assentados podem virar empreendedores com a implantação de programas como o Terra Forte. Lançado em fevereiro, o projeto prevê investimentos de R$ 300 milhões na agroindustrialização de assentamentos até 2017.
O Terra Forte é uma ação interministerial que pretende atender 200 cooperativas instituídas nos assentamentos através de recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Fundação Banco do Brasil e demais parceiros. O assentado não precisa pagar nada para ter acesso ao programa, mas o Banco do Brasil abriu uma linha de crédito de mais R$ 300 milhões que podem ser financiados pelas cooperativas interessadas. Organizados em cooperativas ou associações que tenham propostas de agroindustrialização, os assentados podem se inscrever no Terra Forte até o próximo dia 30 de abril e, só após essa data, se terá uma ideia de quantos assentamentos serão atendidos.
O programa é um complemento ao Terra Sol, lançado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em 2004, que prevê o assessoramento aos assentados e fomenta a agroindustrialização e a exploração comercial dos produtos e serviços dos assentamentos.
Demanda
Tanto o Terra Forte quanto o Terra Sol buscam estruturar os assentamentos para o atendimento a outras duas políticas do governo federal: o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), criado em 2003, e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), aprovado em 2009. Os dois se baseiam na compra de produtos dos assentamentos.
As ações são uma resposta à demanda dos próprios assentados que não queriam desenvolver apenas uma agricultura de subsistência. “Já existem iniciativas incubadas nos assentamentos que têm aumentado, inclusive, em função do PAA e do Pnae. Existe uma pressão dos assentamentos para termos um programa que atenda a essa demanda”, reconhece o coordenador geral de Desenvolvimento dos Assentamentos do Incra, Rogério Mauro.
O superintendente do Incra no estado, Nilton Bezerra Guedes, vê o Paraná numa fase intermediária no processo de agroindustrialização nos assentamentos e aposta em um novo paradigma para a reforma agrária. “Na década de 90, a política era distribuir terras. Agora queremos chegar à modernização nos assentamentos”, comenta.
Cooperativa em Arapongas é referência nacional
Bruna Komarchesqui, da sucursal de Londrina
No último dia 2 de fevereiro – 13 anos após a ocupação que resultou no assentamento Dorcelina Folador, em Arapongas, no Norte do estado –, as 93 famílias do local viram concretizado o antigo sonho de um laticínio. Instalado na Cooperativa de Comercialização e Reforma Agrária União Camponesa (Copran) e inaugurado pela presidente Dilma Rousseff, o laticínio foi possível graças a um investimento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A zootecnista Elisa Koefender, da Copran, frisa que a ideia é dominar toda a cadeia produtiva e fortalecer os próprios cooperados. Por ser uma referência em agroindustrialização, o local foi escolhido para o lançamento do programa Terra Forte.
Atualmente, a Copran tem 470 sócios na região de Arapongas. São 34 produtores de leite, que fornecem uma média de 4 mil litros por dia. Com o objetivo de remunerar melhor o produtor, a cooperativa produz queijo, iogurte, bebidas lácteas e leite em saquinho, que são fornecidos para programas governamentais e supermercados.

Cooperativa produz leite, queijo, iogurte e bebidas lácteas. | Foto: Roberto Custódio/Gazeta do Povo.

Cooperativa produz leite, queijo, iogurte e bebidas lácteas. | Foto: Roberto Custódio/Gazeta do Povo.


Um dos produtores de leite da Copran é o assentado Claudemir da Silva, o Claudinho, de 40 anos. Na propriedade de seis hectares, ele mantém 22 vacas que produzem 130 litros diários. “Tenho R$ 90 mil investidos em animais, um carro bom para andar, meu filho comprou uma moto”, contabiliza.
Mas o caminho foi longo. Natural de Chapecó (SC), onde era agricultor, Claudinho morou em um barraco de lona de oito metros quadrados com esposa e dois filhos durante dois anos. Hoje, há fartura em casa. “A renda livre da minha família [cinco membros] é de R$ 2,2 mil. Tirando o salário da minha mulher, que cuida do gado, sobra R$ 1 mil. Se eu fosse empregado, ganharia um salário mínimo”, diz o cooperado.
Com informações informações da Gazeta do Povo, 08/04/2013.

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